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Agosto/2007

O Muro

Diversão & Arte

 

 

 

 

 

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Poesia

  Prosa

 

Antonio Soares, IMPOSSÍVEL DO MAIS

Antonio Soares, MÃO DO OUTONO

César Henriques, INATINGÍVEL

César Henriques, DESVAIRADA

Chicão de Bodocongó, EU QUERO DIZER

Chicão de Bodocongó, ...BOL...BOL...BOL

Chicão de Bodocongó, E NADA MAIS

Chicão de Bodocongó, RESPONDENDO

Chicão de Bodocongó, A MERA OPINIÃO

Chicão de Bodocongó, O AMANHÃ

Denílson Rocha, CONTA QUE EU TE CONTO

Glaucio Souza de Oliveira, OCASIONADO

Glaucio Souza de Oliveira, Á DISTÂNCIA

Glaucio Souza de Oliveira, TUDO SER

Janaina Lira, TÉDIO

Janice Adja Costa, AGORA

Janice Adja Costa, NÃO MATE PRA NÃO MORRER

Janice Adja Costa, O PRESENTE PERFEITO

João Martinho de Mendonça, ENSAIOS POÉTICOS

José Alves Sobrinho, ADEUS VIOLINHA

José Alves Sobrinho, POEMA FEITO DE IMPROVISO

Lúcia Albuquerque, AMOR AMAR

Lúcia Albuquerque, MEU QUERER

Lúcia Albuquerque, BRISA LEVE

Luiz Gonzaga de Sousa, CAOS

Luiz Gonzaga de Sousa, O TOM DA VIDA

Luiz Gonzaga de Sousa, O RETORNO

Luiz Gonzaga de Sousa, O SOLITÁRIO

Manoel F. G. Filho, PÉROLA

Wallas Ramos, CONCÊNTRICO

Wallas Ramos, DESCONSTRUÇÃO

Wallas Ramos, Á FRENTE DO VERSO

Wallas Ramos, DOIS

Wallas Ramos, RETORNO

Wallas Ramos, CAÇADA

Wallas Ramos, QUARTETOS

 

 

 

 

INATINGÍVEL

 

César Henriques

 

O tempo, inexorável meio onde me escondo e vivo,

Onde traio minhas vontades, subjugo meus encantos fúteis,

Lugar comum de iguais, lar feliz de combativos,

Heróis que são não mais do que heróis inúteis.

 

O tempo passa em mim, eu passo no tempo deixando,

A parte que me cabe, marca de indeléveis prantos,

Vem o momento paro, olho o passado, estou pensando,

Onde está o tempo que me trouxe ao hoje em que me encontro?

 

Hoje não mais o tenho, pra buscar o meu perdido,

Mas do que vale esse querer, ter de volta esse passado,

Se não posso ter para mim, o meu ontem proibido?

 

Nas batalhas que eu travo, tentando viver comigo,

Me encontro neste agora, feliz por ter encontrado,

do primeiro a este verso, o meu instante vivido.

 

DESVAIRADA

 

César Henriques

 

Mãos que tocam meu corpo, me desmintam,

A saga do meu prazer indomável,

Entre falanges te darei meu tudo,

Vida que sai de mim, para ser meu nada.

 

Ágeis toques, que se levante o cerne,

Que me envolve a mim, de sensações fatais,

Mais que de súbito, lacteamente o êxtase,

E todo o meu prazer entre mãos se esvai.

 

De Príapo, tenho tudo, em todos os momentos

Das mãos que me consolam, resta inda pulsante,

Parte do meu corpo na ânsia de mulher.

 

Antes fossem mãos, obras condenadas,

Pra que todo o meu prazer já não tão vivo o bastante

Nunca fosse absorvido, num lugar qualquer...

 

CONTA QUE EU TE CONTO

 

Denílson Rocha

 

Dedicado a Cristina Conserva

 

Conta comigo sem duvidar,

em qualquer segundo,

em mil lugares do mundo.

Conta comigo às quatro da manhã de domingo,

debaixo de chuva, com febre de quarenta.

Conta sim, experimenta!

Não faz conta, apenas conta.

 

Conta comigo e me conta

até o que não é da minha conta.

Se está feliz, cansada ou tonta,

Corre pra mim, me conta,

que eu te conto.

Por que estou sempre tão pronto.

Não duvida, divida

comigo um conto.

 

Sentado ao teu lado, encantado,

Braço dado, caminho partilhado.

Te digo com toda razão,

ou não.

Te digo de bate-pronto,

ou nem tanto.

O porquê de ser assim.

Esse encanto teu em mim.

 

ADEUS VIOLINHA

 

José Alves Sobrinho

 

Adeus violinha,

Até não sei quando...

Porém, stou pensando

Que até nunca mais,

Levo por lembrança,

Da nossa amizade,

Bastante saudades,

Soluços e ais.

 

Por motivo justo

Que não te declaro,

De te me separo

Viola querida,

Porém não esqueço

Que em dias maiores

Me deste os melhores

Momentos da vida.

 

Uni-me contigo

Ainda menino,

Muito pequenino,

Sem forças, sem planos,

E dessa união

De ingênua criança

Fiz-te a esperança

Dos meus quinze anos.

 

Levaste-me à salas

Granfinas e nobres,

De ricos e pobres,

Burgueses, ricaços,

Num mundo de sonhos,

Prazeres e glórias,

Eu tive vitórias

Contigo nos braços.

 

Andei pelo mundo

Vivi muitas vidas

Mulheres, bebidas,

Castelos e sonhos,

Sem nunca pensar

Na realidade

Da adversidade

Dos dia medonhos.

 

No mundo dos versos

Enfrentei campanhas,

E em terras estranhas

Fui bem acolhido,

Joguei com o naipe

Dos maiores trunfos

Pensando em triunfos

Foi tudo perdido!

 

A aurora da vida

Foi bela e fagueira,

Embora, ligeira,

Qual um furacão,

Que as horas alegres

São mais fugidias

Que as horas vazias

Da desolação.

 

Adeus mocidade,

Doces primaveras,

Benditas quimeras,

Feliz paraíso,

O último pranto

O tempo enxugou

E a idade apagou

O último riso.

 

Saudades infindas

Das horas felizes

Abrem cicatrizes

No meu coração,

E desiludido

Das glórias terrenas

Vou viver apenas

Da recordação.

 

Adeus companheiros

E velhos amigos

Colegas antigos

Que eu chamava irmãos,

Desmancho o cenário

Fim do episódio

Sem mágoas sem ódio,

Sem nada nas mãos.

 

Aos velhos colegas

Deixo o meu abraço

Neste humilde traço

De minha saudade

E aos jovens poetas

De Dom positivo

Dou como incentivo

A minha amizade.

 

E volto ao silêncio

Do anonimato

Já que o mundo ingrato

Não me compreendeu

E vendo que tudo

É cheio de falhas

Desprezo as medalhas

Que o mundo me deu.

 

E tu ó violinha

Amada e querida

Guarda minha vida

No teu abandono,

Pede as estas cordas

Que tocaram tanto

Solucem no pranto

Da dor do teu dono.

 

Muito agradecido

Pelo que fizeste

Tudo que me deste

Do pão ao renome,

Não mais ouviras

Os meus estribilhos

Fica com meus filhos

Lembrando meu nome.

 

POEMA FEITO DE IMPROVISO NO TEATRO JOSÉ DE ALENCAR, EM 1995.

POR ACASIÃO QUE RECEBIA UMA HOMENAGEM DOS ESCRITORES FOLCLORISTAS GERALDO AMANCIO E WANDERLEY PEREIRA.

 

José Alves Sobrinho

 

Fortaleza, terra amiga

Aonde em anos atrás

Cantei com bons cantadores,

Muitos não existem mais:

Martins Fonseca, Zé Aires,

Repentistas invulgares

Como Vicente Granjeiro,

Bentevi, José Batista

E outro grande repentista,

José da Mota Pinheiro.

 

Entre os vivos não esqueço

O grande Antônio Ferreira,

João Siqueira de Amorim,

Também, Lourival Bandeira,

Dimas Mateus, Zé Maria,

Benoni, luz e poesia,

Iluminando o sertão,

Alberto e José Porfírio

Fazem parte do delírio

De minha recordação.

 

Fortaleza de Galeno

E de Leonardo Mota

Seria grande injustiça

Eu não lembrar de Leota

E de Gustavo Barroso

Pesquisador primoroso

Das cantigas populares.

Estão na mesma fileira

Hoje Vanderley Pereira

Ontem Francisco Linhares.

 

Meu nobre amigo Siqueira

Meu velho colega amigo

Que felicidade a minha!

Estar aqui junto contigo!

Recebendo esta homenagem,

Ouvindo a mesma mensagem,

Sentindo a mesma alegria,

Só assim recordaremos

As noitadas que fizemos

Cantando de parceria.

 

Parece que a natureza

Nos deu o mesmo destino:

Você, poeta andarilho,

Eu, poeta peregrino,

Houve um poder contra nós:

Você perdeu sua voz

O mesmo me aconteceu,

Somos nós dois mutilados,

Dois passarinhos calados

Que p destino emudeceu.

 

Obrigado, Vanderley,

Agradecido, Geraldo,

Um no lugar de Leota,

Outro, do Cego Aderaldo.

Entre alegre e comovido

Estou mesmo agradecido

Aqui, penhoradamente,

Por ganhar esta comenda

Que não foi uma encomenda

E eu recebo humildemente.

 

E a vida continua,

Estamos em Fortaleza,

Não há motivos de angústia,

Só de alegria e beleza,

Pois recebo neste dia

Mais do que mereceria

Pela minha vida inteira,

Depois deste grande saldo

Muito agradeço a Geraldo

E a Vanderley Pereira.

 

ENSAIOS POÉTICOS

 

João Martinho de Mendonça

 

1.

Formigas mortas nas meias novas

Fazem Pensar

Na evolução das espécies, não das que rastejam, mas das que flutuam: idéias que não morrem

 

2.

Um mundo imaginário onde pousa lentamente meu coração

Se descortina

Para além da novela diária de odiosa, lancinante e farta limitação

 

3.

Aos que se soltam um belo presente será dado

Ao olhar

Diferentemente as luzes e as estrelas: discreto sorriso do luar

 

4.

Por mais que se sofra, se queixe, se deixe, se negue, se esqueça ou se largue

Vive-se

Com o gozo à espreita na cama, no quarto, na rua, na sala, no sonho ou na calçada

 

5.

Porque ela não queria saber naquele dia sobre a revolução

Do neolítico

Inscrições rupestres, demoradas festas em seguidas noites enluaradas: milho, trigo e arroz celebrados

 

TÉDIO

 

Janaina Lira

 

Não tenho outra coisa para fazer, senão poesia

Não tenho outra coisa para te dizer senão poesia

Não tenho dor ou alegria, senão poesia

Não tenho tempo, o tempo é poesia

Não tenho amigos, senão poesia

Não pretendo coisa alguma, senão poesia

Não posso fazer outra coisa, senão poesia

Não há nada aqui dentro

Não há nada lá fora

Mas tudo é poesia

O mar é uma ínfima gota de água

O resto e tudo mais é poesia

 

A poesia me insiste, me instiga, me lambe

Me acocha, me espreme, me espreita

Me faz...

E eu,

Eu não sou poesia

 

PÉROLA

 

Manoel F. G. Filho

 

Pérola rara, que bom sentimento...

Viver o momento dos teus olhos nos meus

Tão rara beleza que só em jóias se encontra

Desse casual encontro, tão perto do céu.

 

Descerrando o véu, do acaso vivido...

Sinto-me servido por anjos em alegoria;

Vislumbrar essa aura de rubra energia

Minha sede sacia e nem sou menestrel!

 

Obs.: Em algum lugar, em alguma noite, entre Fortaleza e Recife, a 10.900 m de altura, em um avião da TAM.

 

IMPOSSÍVEL DO MAIS

 

Antonio Soares

 

O caos e um mito para te repor a existência

e te cingir da futilidade de um passeio ao velho Rossio.

 

Já falharam três revoluções para te conquistar

e és sempre a mesma rocha sem abalo

a mesma estrela fixa dos longínquos céus esmaecida.

 

Diz-me o teu nome, o teu pensar de viúva agreste,

deixa-me cair na palma da mão os suores do rosto

de procurares o pão que te alimente.

 

Tu não sabes que um ócio longínquo te retém o passo

e uma andorinha te encarnou a saudade triste

do exílio africano?

 

Em breve saberás oficialmente

o impossível do mais para o teu mundo.

 

MÃO DO OUTONO

 

Antonio Soares

 

Folhas dos sonhos verdes

o Outono arrancou-mas uma a uma.

 

Banco do jardim

do tão idílio jovem

na tarde saudosa dum bom Julho

 

A metafísica do longe

com faixas do silêncio me prendeu

nas regiões puríssimas do além

- marasmo deste olhar-me

nos espelhos das águas mentirosas

 

...folhas dos sonhos verdes

veio a mão caprichosa do Outono

e arrancou-mas uma a uma.

 

CAOS

 

Luiz Gonzaga de Sousa

 

A noite cai

Normalmente, como antigamente.

Tudo está simples como antes.

Mais tarde, um estampido

Bate fortemente

Em meu ouvido

Anunciando a dor intransigente.

 

Inocente, eu vou ao trabalho.

Algo insinua o que pode acontecer.

Aqui e acolá a tristeza me bate

De instante a instante

Como se fosse um encarte

Que aos poucos se desligasse

Sem eu poder compreender.

 

E, ao chegar em casa.

Todos me esperavam absorto

Com demonstração de tristeza

Que eu tive que conter

Extasiado com o choque

Que a natureza impõe

Ao mostrar o quadro de um morto.

 

Era o meu pai que dormia

Para a sua libertação.

Que liberdade se o mundo o aprisiona

Com o sabor mundano

Intransigente e sem rumo,

Cujo comando fraquejante dormita

No campo da solidão.

 

O TOM DA VIDA

 

Luiz Gonzaga de Sousa

 

Nos encontramos um dia.

Éramos dois enamorados,

Que víamos encantamento

Numa anestesia feroz

E, lá juntos,

O amor cresceu feliz

Puxado pelo alado.

 

A comunidade cresceu.

Já éramos três

Vivendo num mesmo teto

Entre tapas e beijos.

A sobrevivência ao lado

Falava ao pé do ouvido

Como assim se fez.

 

Já cinco dentro de casa

A alegria era abundante

De choros e risadas

Intermitentes ao lado

Entretanto, o mundo une

Somos oito num mesmo teto

Ainda organizada.

 

Porém, desliga-se tudo;

Sai nossa mãe de casa,

Vai a outro campo buscar

Sentido para a vida.

Em seguida nosso pai,

É que vai cumprir sua missão

Cujo desmaio se esvai.

 

O RETORNO

 

Luiz Gonzaga de Sousa

 

Somos pó,

E para o pó vamos.

Foi minha mãe, depois meu pai.

Nós ficamos tristes a chorar

Mas, não podemos lamentar.

Tarefa cumprida

Como observamos.

 

Minha mãe foi rosa, foi esperança,

Foi tudo que nós tivemos

Foi o brilho de uma labuta

Cuja simplicidade empreendemos

De forma singular vivemos

O encanto de uma vida

Que depositou herança.

 

Meu pai foi um exemplo

Para não se fazer igual

Foi o reverso da luta

Porém, de um jeito natural,

Como tudo na natureza

Que tem a sua franqueza;

Pois, o bem não se disputa.

 

Minha mãe, meu pai se foram.

Só nos restam a saudade

E a vontade de tê-los presentes,

Numa família só e unida

Portanto, o tempo passou,

Não soubemos aproveitar

A oportunidade de amá-los em vida.

 

O SOLITÁRIO

 

Luiz Gonzaga de Sousa

 

Estou só

A saudade me bate intransigente

Lembranças de minha mãe

Saudades de meu pai

São dores que não passam

E facilmente se impõe

Transportando-me ao nada.

 

É difícil conviver

Com as dores da ilusão

Que fortalece a tristeza

Acabrunhando o ser humano

Não sei me libertar

De um passado que maltrata

Numa resistente escuridão.

 

Paro um pouco

Penso e penso calmamente

Como se fosse um exemplo fútil

Para inspirar alguém

Perdido em seu egocentrismo

Por não participar da vida

Que eu pensei também.

 

Pelas ruas escuras eu passo

Olho para um canto e outro

Não sei se compreendo algo

Porém, vivo a meditar

Com lágrimas em meus olhos

Que não querem parar

De molhar as preces que faço.

 

EU QUERO DIZER

 

Chicão de Bodocongó

Campina bondoso, 31 de julho de 2006

Às 22ho8min

 

Nas curvas, nas retas, nas paralelas,

O mundo segue na sua caminhada

E na estrada encontra seu rumo.

A primeira passa, vem depois a segunda

E a terceira em diante

Ficará radiante em viver

Em um mundo das passarelas,

E entre todas elas surge ela

A eleita a Cinderela.

A simetria do corpo,

O seu brilho,

A luz que reluz

Na pele

A sofrer olhares,

Algures

Os olhos de um de dois

E mais de três

Seguem a eleita.

Consta

Que o mundo nada mais é

Que a beleza em forma

De surpresa, na forma de mulher que vemos

Nas esquinas, nos movimentos

Das ancas, potranca, bela potranca,

Perfeita.

 

...BOL...BOL...BOL

 

Chicão de Bodocongó

Campina Grande, 12 de agosto de 2006

Às 15h54min

 

Pichotebol, furabolo, catapiolho,

O seu rei não manda em nada.

A coalhada está servida,

A quadrilha é da pesada,

Com muitos paus ela faz uma jangada

E se descuidar, ganha na cara uma mijada.

 

Farofabol, faro de farofeiro,

Pudim de queijo, poder que eu quero,

Que eu berro, me entreto depois

De comer pudim que foi feito para mim.

 

Festabol, aí está a alegria,

A história é outra, e a confraria

É sempre a mesma , a gula fala mais

Alto, dá pinote e nada a satisfaz.

O pedido é o mesmo: quero mais, quero mais, quero mais.

 

E NADA MAIS

 

Chicão de Bodocongó

Campina Grande, 28 de julho de 2006

Às 6h49min

 

O dia nasce claro

A ausência da chuva

Faz-me um observador.

Como viver e prevenir invernos?

Há uma certa tendência em nos sentir

Internos de um ou de muitos infernos

Que nos impõe uma série de inconvenientes.

Renitentes estamos a mercê dos fatos

Que em dose cavalar nos surpreende

E nos remete para uma zona paranóica,

Rasteira, que só pensa besteira, e nada mais.

 

RESPONDENDO

 

Chicão de Bodocongó

Campina Grande,16 de setembro 2006

Às 20h54min

 

Quem na vida duvidou do ser correto

E não viveu uma injusta repressão.

Quem aprendeu errando reconhece

Pra todo erro tem castigo que merece.

Mas quem comanda, representa a sanção

De uma lei, de um domínio incontestado,

Confundindo o poder com a razão,

Pode está equivocado.

Lá na China corrupto é fuzilado

E a família ainda paga a munição.

 

Ainda temos inocente que afirma

Que gostaria ter no Brasil a bruta lei,

Onde todos lucrariam com a medida

Só o corrupto perderia a própria vida.

Um braço forte era a grande solução

Para um Brasil completamente depravado,

Pra felicidade desta nação,

Precisa-se ter como base o confirmado,

Lá na China corrupto é fuzilado

E a família ainda paga a munição

 

Pra findar estes versos maltratados

Que de dez não sei o que fazer

De dez pés já cheguei a onze ou doze,

Tentei pose de poeta e nada fiz

Com esforço ainda saiu um comentário

No Brasil quem morre é um infeliz

Há de ser fuzilado um operário

E o otário ainda acha uma razão

Que lá na China corrupto é fuzilado

E a família ainda paga a munição.

 

A MERA OPINIÃO

 

Chicão de Bodocongó

Campina Grande, 16 de junho de 2006

Às 2h12min

 

A mera opinião é o início do trajeto

Que irá levá-lo para um lugar seguro,

Base de um projeto que define o que quer.

 

A mera opinião impõe ao mundo uma sugestão,

Em segundos o fará recorrer ao mesmo mundo

Pondo-se a tratá-lo como realmente é.

 

A mera opinião comanda os desejos

De defender o viver com muito empenho

De resolver aquilo que é tratado como urgente.

 

A mera opinião é a conclusão de não ficar calado

Quando nada serve para distinguir

No relato, o submisso do independente.

 

A mera opinião, a resposta dada cheia de emoção

Ao mundo virado ao avesso,

A salvação do tropeço, o começo insuficiente para uma discussão.

 

Onde está a claridade das idéias

Que levará amizade para todos?

Com compromisso sempre com um mundo novo,

Vai diminuir a dor que a todos atordoam.

 

Quanto custa um minuto da tua tranqüilidade?

Vale uma história toda de maldade?

Sofrimento é sempre um documento,

Para viajar em um trem carregado de ideais.

 

A louca busca de um comportamento

Faz crer que a tristeza é constante

E não haverá nenhum constrangimento

Em se fazer mais que um irmão.

 

Declaração é feita em busca de uma razão,

Sacrificada, mais que sirva de alento,

O pensamento se torna deveras lento

E espera que se encontre uma solução.

 

Quem não pede clemência nas horas de angustia

E espera ser defendido com toda paciência?

A experiência dá lugar a interferência

E despe-se de toda competência

Acumulada no tempo de ternura.

 

Haverá um tempo para tudo,

Duvide sempre das situações mais duras

A amargura sempre tece e entristece um final

Quando se nega a pensar sem definir o bem o mal,

Arriscando a todos neste velho carrossel

Que enlouquece no gira-gira das paixões.

 

O AMANHÃ

 

Chicão de Bodocongó

Campina Grande, 23 de setembro de 2006

Às 13h21min

 

Amanhã é dia de festa

Dia de fazer o que não presta

Fazer parte de uma orquestra desastrada.

 

Amanhã pé na estrada

Para os que gostam de folia

Vamos viver um belo dia

 

Amanhã nada tenho pra fazer

O que eu quero é não me maldizer

E ainda resta o prazer de balançar na rede.

 

E minha preguiça responde, me faz acrescentar:

Hoje é o amanhã de ontem

É preciso descansar e vadiar.

 

AGORA

 

Janice Adja Costa

 

Decorre minha vida perene,

Neste rio abusivamente repleto.

Onde a paisagem brilha,

Ao receber a luz solar.

A maior obra ourivesaria!

 

Meu coração esplêndido,

Farto de alegria e paz,

Não chora o passado alado.

Vive sem entremezada ou culpa,

Na claridade do sol e na luminosidade da lua.

 

Neste sustentáculo natural,

Purifico o amargo da vida.

Desembebedo as enxurradas,

Deixo o lírico perfume silvestre

 

NÃO MATE PRA NÃO MORRER

 

Janice Adja Costa

 

Nesta ambiência selvagem,

Não quero ser protagonista.

Vivo o anonimato,

Infeliz neste grande âmbito.

 

A dolência das árvores,

Que mortas viram até portas.

Para trancar a matança,

Dos que habitam nas trevas.

 

Homens inglórios,

Modificadores da geotermia.

Fazendo parte dos vaidosos nidoosos,

Com relutância impontual.

 

São homens que matam,

Destroem o que tem de graça.

Deixando assim o planeta,

Cinza, sem vida e sem mata.

 

O homem cruelmente impiedoso,

Enfurece a natureza.

Larga a terra enferma,

Infestada de impurezas.

 

E no centro desta selva,

Existe mentes luzidas.

Fiança até para salvar,

Mosquitos, baratas , ratos e lagartixas.

 

Cada um é unifloro,

Uno na sua espécie.

Da fauna e flora que aflora,

Em vidas pra gerar vidas.

 

O PRESENTE PERFEITO

 

Janice Adja Costa

 

Na formação do mundo,

O criador de multígeno, deu cores.

E em suas combinações de tons,

Surgiu o homem.

O homem, sotração arrufadiço.

 

Espécie tácita com estretégia

Vindo da estratocracia,

Para assolar vidas.

Um sovinísta crudelíssimo.

Cheio de desassossego.

 

Manifestado de descoco,

Insônia escurecida e não olvida.

A lucina do céu chora com o desgosto,

Desta espécie malígna

De cor vibrante e lucilante.

 

Olorum, atribuindo sua mandriice

A falta de onde poder ombrear-se.

Presenteou-lhe com a mulher alípede.

 

Arrufado, escraviza a mulher conquistadora

Da autonomia indecomponivelmente iluminada.

Frágil, acuado pelo medo da solidão aflogística,

O criado tenta furgir da sua responsabilidade

De Ter que sentir a merecida dor da cronicidade.

 

O criador da moderna senzala urbana

Entra em fuga mesta selva de concreto.

Pondo seus pés no sepulcrário ainda em vida

Ouvindo uma voz estridulante

E sem medo de perder as alvíssaras

Grita: MORRA!

 

OCASIONADO

 

Glaucio Souza de Oliveira

glauciador@bol.com.br

 

Parecia o fim de tudo.

A tarde ia morrendo.

Eu queria viver a luz

O sol se escondendo.

Eu queria não sentir medo...

O escuro é tão frio.

Mesmo que eu fizesse um círculo na terra,

Pra não perder tua luz, nem da tarde á luz tão bela.

 

O sol agora é metade.

Metade de mim também desaparece.

O ocaso é a separação da tarde, o acaso te separa de mim...

Entre sombras sou crepusculário vagalumeando a te procurar.

É tarde, quase noite.

Teu amor também escurece.

O mormaço foi o que restou da luz,

A mim o que restou foi a prece...

Ave Maria...

 

Á DISTÂNCIA

 

Glaucio Souza de Oliveira

glauciador@bol.com.br

 

Vai, vai para bem longe,

Passa dias sem me ver.

O coração se penetra sem a saudade caber.

Mas á medida que andar seja para onde for,

Algum dia quando voltares,

Traga na medida do amor.

 

Se a saudade vier em forma de paisagem.

Fecha os olhos do corpo.

Manda teu ser em viágem.

Buscar pelas asas de um sonho,

O que teus braços não podem abraçar

E o que a distancia não pode se opôr.

 

A distancia pode ser obstáculo para o corpo,

Mas nunca o será para a alma.

 

TUDO SER

 

Glaucio Souza de Oliveira

glauciador@bol.com.br

 

Há dentro de cada ser.

Um ser livre, um ser reprimido.

Um ser luz um ser obscuro

Um ser que dar, outro que atira na vida.

Um ser nasce; um ser aborto.

Um ser que ama outro que odeia.

Um ser másculo, um ser feminil.

Ser filho ser pai, mãe, homem, bicho...

São tantos seres dentro de um... Ser só.

Que pode até... Não ser

Um ser. Sem ser bom nem mal.

Apenas um ser humano, sem tirar nem pôr.

 

CONCÊNTRICO

 

Wallas Ramos

 

Tempos de pedra

A sóbria idade escoa

A sombra te cobre, indecisa.

Tua tênue alma treme:

Onde achar espaço, se

O laço apertou; e, o que era vasto

É apenas estéril deserto.

Ocaso do sol sobre a densa areia

Mas qual o mar, e quais sereias?

 

DESCONSTRUÇÃO

 

Wallas Ramos

 

Nesse instante quase tudo cai:

A árvore seca

O arco-íris esvai-se.

A flecha quase atravessa

Teu universo de cal.

Agora se quer o outro

Te servirá de conforto.

Eis a encruzilhada:

Ir pelo barranco ou a reta

E não a sempre estrada

Mais um passo, paraíso,

Ou, o buraco da promessa.

 

Á FRENTE DO VERSO

 

Wallas Ramos

 

No meio, o caminho reto

Placidez da potência

Adiante o abismo futuro:

Aquele impassível tudo

Agora, servirá algum desvio?

Os olhos vesgos não vêem demais?

Tanto que luz cega de frente

Aqui, correr, orar, precipita o poente.

 

DOIS

 

Wallas Ramos

 

Rompeu-se o entrave:

Após intensa luta, o gozo

Veio, e, idem, o desmaio.

O tempo pleno é este;

O inverso é um outro espaço.

Hoje, veio aquele sopro de vida:

Aqui ela cruzou tua reta,

 

RETORNO

 

Wallas Ramos

 

O excesso te levou longe.

Agora, a tua frente, o abismo

Antes de ousar esse vôo vazio

Um último sacrifício: voltar,

Suave, à tua singela origem.

 

CAÇADA

 

Wallas Ramos

 

O dia começa e vem a esfinge

Que hoje, sorrir e te convida

Abismo, planície, ou mar à vista?

Tudo extenso e aberto

Até a vertigem da noite

O sopro seco do coiote

Que busca em ti o interlúdio.

 

QUARTETOS

 

Wallas Ramos

 

O tempo, um oceano

Ela, ilha à deriva

Eu, o sol de todo instante

Não ilumino meus sonhos

 

Eu não te amo

Mas poderia:

Se fosse oceano

Te inundaria...

 

ela não quer mais você

apenas sol ou semente

deseja-o todo:

outro dia, plena nascente.

 

a semente cresceu

é uma árvore no alto

é quase um astro

uma estrela sem deus.

 

quem vem longe?

mais um eremita

que não mais acredita

e na poeira se esconde.

 

 

AMOR AMAR

 

Lúcia Albuquerque

 

Por que existe guerra

Se amar é um ato tão sublime?

Amor: Sentimento misterioso

Invade o coração sem pedir licença

 

Amor que toma nossa vida

Depois convida a rir ou chorar

Deixa a vida bagunçada

Faz-nos pensar em nada

 

Amor Amar

Em um mundo de contradições, guerras e desilusões

Para aprender amar

É necessário crer, acreditar e buscar

 

MEU QUERER

 

Lúcia Albuquerque

 

Queria viver em mundo melhor

Um mundo com cores belas

Com paz infinita, pássaros sempre a cantar

Um mundo iluminado, sem querer crer no pior

 

Queria acreditar nas pessoas boas

Pessoas que possuam amor no coração

Em um mundo de paz constante

Sem ver na minha frente coisas loucas

 

Queria não presenciar sofrimento

Nesse mundo cada vez mais ilusório

De lutas pessoais constantes

Só quero crer que todos um dia terão alento

 

Queria que não existisse doença

Nessa vida tão perversa

Que agride, machuca, condena

Onde a única força é ter crença

 

BRISA LEVE

 

Lúcia Albuquerque

 

Na minha face se faz presente

A brisa leve que meu coração acalma

Fazendo-me pensar em ti

Inundando assim minh’alma

 

Essa brisa inundante

Apossa-se do meu coração

Enlouquece meu pensamento

E soa aos meus ouvidos em forma de canção

 

Revela-me teus ocultos segredos

Se pensas ou não em mim

Cria uma fantasia

Sendo todos felizes no fim.

 

  Poesia

Prosa

 

 

 

VOCÊ PENSA QUE É FÁCIL?

 

de Ronaldo Evaristo Gonçalves

do livro em preparo “amar não é assim”

 

O homem que entrou na sala do delegado, vinha dizendo para o agente que o conduzia em tom de muita exaltação, que a última coisa que queria fazer na vida era quebrar os vidros das estantes mostruários da livraria cultura, da forma como havia feito, não fosse haver ali exposto alguns exemplares de um livro.....

O delegado de bigodinho úmido, e muito lustroso, já ia abrindo a boca num sorrisinho cínico, enquanto o agente solicitava ao preso que se sentasse e fechasse o bico.

- Muito bem, o que foi que o tal ai fez? perguntou o delegado.

- Quebrou a livraria toda, rasgou muitos livros e fez um escândalo dos diabos.

Eh, estas encrencado cabrudo, podes dizer-me porque fizesses isto?

O homem que até então tinha ficado calado começou a falar de forma pausada e muito coerente, olhou para o agente como quem pergunta se estava certo ou errado, e foi dizendo, que o delegado não haveria de entendê-lo, pois que ele era um escritor, um homem educado, que gostava das letras, e amava os livros, foi falando isso e gesticulando meio desesperado, como quem não encontra palavras para exprimir certos sentimentos e vai falando por gestos, por fim deu de ombros e calou-se, para logo em seguida cair num choro que se tornou inquietante e irritava o delegado que tinha de concluir o inquérito e encaminhar o sujeito para a sua jaula enquanto o processo...

O homem tinha os olhos profundos e tristes, a fisionomia carregada, os cabelos compridos e totalmente brancos e desalinhados, fazia conjunto com uma barba profusa, branca e entranhada. Trazia a tiracolo uma bolsa de couro bastante usada e completamente cheia de livros e cadernos com rascunhos. Conforme o agente constatara, tratava-se de um escritor; pior de um escritor bem conhecido na cidade, com alguns alfarrábios publicados e esquecidos pelas bibliotecas da vida.

O homem deu um grande suspiro e com os grandes olhos voltados para a parede continuou falando.

Eu tinha uma historia todinha na ponta da língua, estava na mente todos os dias quando acordava, e sabia cada palavra que iria por no papel. O tesouro de um escritor é sua memória, seu talento por melhor que seja, depende dela para existir, e o romance estava ali e estive mourejando essa boa história por vários dias, mas de repente apareceu uma pessoa a quem eu não poderia deixar de dar atenção, uma pessoa muito importante para mim e depois o que houve é que tudo que eu mais desejava era dar-lhe um bom presente, um bom livro e foi ai que tudo começou, não fosse haver naquela vitrine um exemplar com o mesmo título do meu romance... aquilo era demais, não bastasse os tantos magos da vida que agora se insinuam como escritores e correm o mundo, psiquiatras que viram gurus e tudo mais

e agora uma simples idéia já era então copiada e editada aos milhares... Você pensa que é fácil pensar e ter seu pensamento roubado, suas idéias plagiadas editadas aos milhares?

O delegado foi achando aquele discurso muito esquisito, foi olhando também para o sujeito que parecia mesmo um louco, não somente pelo que falava mais por que tinha um aspecto estranho, grandalhão descomunal e que falava aquilo tudo de uma forma agora muito calma, só poderia mesmo ser coisa de loucos ou de escritores... ainda achou que afinal, tudo poderia ter sido mesmo uma coincidência, o tal título do livro ser o mesmo que etc. e tal e que tudo isso deixara o sujeito furioso... coincidências, meu velho, coincidências e nada mais, foi dizendo o delegado que não contava com aquela reação do escritor, altão, galego, de olhos tristes e profundos, que ficou de pé e foi dizendo que coincidências era a que , que isso não era modos de se entender de arte, muito mais da arte da palavra esta coisa única e maravilhosa que transforma tudo, que traz da alma o mais profundo dos sentimentos e expressa no mais singelo diálogo, no mais simples dos personagens, nestas histórias que vão rasgando nossas vidas, nas ficções mais verdadeiras que podem expressar toda a vida de um povo etc. e tal, será que nunca leu os sertões do Euclides ou mesmo o Macunaíma, Iracema de José de Alencar, os livros do Veríssimo, Tolstoi, Dostoievski, Heminguay, Nabucov, ou nunca passou da décima primeira página de alguns livros de Agatha Christie, talvez seja daí que tirou esse seu bigodinho a la Poirrot.

Irritado ou lisonjeado qual era mesmo o sentido certo da coisa, pensava o delegado, e agora o que faço, perguntava-se, pois sua primeira vontade foi de correr ao espelho, se havia espelho naquela espelunca de delegacia, queria ver o quão parecido estava com este tal Poirrot, que era lá, um bom detetive, e um homem de muita intuição, que por sinal era o que lhe faltava, porque já não sabia se ria ou se esbraveja com o tal grandão, onde já se viu, escritorzinho de nada fazendo comparações daquele tipo, que foi mesmo que ele quebrou, quantos livros rasgou, teria como sanar o prejuízo e ponto final, poderia ir andando pela vida, quem sabe teria agora uma nova história para escrever, e foi pensando assim que o delegando estava ficando muito animado para resolver o caso, não fosse uma nova insinuação do homem que agora falava em tom de vítima, que se houvesse justiça, tinha-se um caso e tanto, pois poderia provar por A mas B que o caso era de roubo de idéias, de plágio, de alguém que sem saber como, lhe havia furtado a inspiração, e assim, sua história havia lhe escapado da mente como que num sonho e estava ali na prateleira, nos milhares de livros publicados. E era tudo muito verdade, pois tinha também folheado um volume do tal livro e constatado, que o outro se apoderara de seus pensamentos, pois estava tudo ali, tudo o que desejava escrever no seu novo livro estava ali exposto de forma clara e nítida, como mesmo fora possível tal coisa não lhe pergunte, apenas investigue e descubra que foi mesmo assim.

Agora precisava mesmo, conhecer mais sobre esse tal homem, o Poirrot, o famoso detetive que se como tal ficasse, poderia incorporando seu jeito resolver o caso, não poderia o agente que trouxe o homem providenciar uns livros dessa tal autora inglesa, Agatha Chistie, vamos homem faça alguma coisa, ia já dizendo para o agente, que fosse ao sebo do Ronaldo, lá na Getúlio Vargas e comprasse tantos quantos tivesse, livros da tal autora, que fossem protagonizados pelo tal detetive belga. Mas o grandalhão continuava na sua fala mansa e calma e ia dizendo que isso era uma questão muito séria, não era loucura, pois podia provar, que seus personagens estavam ali todos no tal livro e que de tanta raiva o rasgara e de sobra quebrara os vidros e espalhara os livros dos gurus e dos magos, pois nesta cidade os autores locais ficam esquecidos, seus livros quando publicados, ficam escondidos nas prateleiras das livrarias, ninguém sabendo mais da sua existência.

Difícil é ser delegado, disse então Hercule Poirrot, você pensa que é fácil resolver um caso desse, seu louco, não sei onde estou que não lhe ponho nas grades, ali onde, deve ficar até melhorar o pensamento e, onde já se viu uma coisa dessa, ocupar a polícia com uma doidice assim, ao passo que o grandão foi então dizendo, que o delegado era um apressadinho, que não gostava era de pensar, que de Poirrot só tinha mesmo o bigodinho, mas que nem merecia tanto, aquilo era mesmo uma desonra da profissão, pois não custava nada um pouco de imaginação que bem poderia ajudá-lo.

- Ninguém rouba uma idéia quando esta está ainda em nossa cabeça. - Enfatizou o delegado, para logo em seguida ir se arrependendo do que dissera, pois o homem, riu alto e mostrou os dentes, levantou o braço e apontou com um dedo na frente do delegado, que a essa altura já não se importava mais com o problema da autoridade.

Foi dizendo como quem adivinhava, que o delegado gostara da idéia de parecer com o famoso detetive das novelas da Agatha Christie, que se não tinha ali escondido nas velhas gavetas dos birôs algum livro da autora policial mais lida no mundo, já amarrotado de tanto ser manuseado, isso sim, não era consciência, mais um descuido imperdoável. O delegado ouvindo tudo, queria discordar e não podia, queria concordar e não sabia o que fazer, afinal de onde aquele tal tirava tanta coisa, já estava até chegando a concluir que era mesmo possível roubar de alguém suas idéias quando estas ainda estão na cabeça, pois não é que o tal estava a ponto de adivinhar, ou não estaria ele apenas sugerindo coisas?

 

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