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Edição Agosto/2007 |
O Muro Diversão & Arte |
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César Henriques O tempo, inexorável meio onde me escondo e vivo, Onde traio minhas vontades, subjugo meus encantos fúteis, Lugar comum de iguais, lar feliz de combativos, Heróis que são não mais do que heróis inúteis. O tempo passa em mim, eu passo no tempo deixando, A parte que me cabe, marca de indeléveis prantos, Vem o momento paro, olho o passado, estou pensando, Onde está o tempo que me trouxe ao hoje em que me encontro? Hoje não mais o tenho, pra buscar o meu perdido, Mas do que vale esse querer, ter de volta esse passado, Se não posso ter para mim, o meu ontem proibido? Nas batalhas que eu travo, tentando viver comigo, Me encontro neste agora, feliz por ter encontrado, do primeiro a este verso, o meu instante vivido. César Henriques Mãos que tocam meu corpo, me desmintam, A saga do meu prazer indomável, Entre falanges te darei meu tudo, Vida que sai de mim, para ser meu nada. Ágeis toques, que se levante o cerne, Que me envolve a mim, de sensações fatais, Mais que de súbito, lacteamente
o êxtase, E todo o meu prazer entre mãos se esvai. De Príapo, tenho tudo, em todos os
momentos Das mãos que me consolam, resta inda pulsante, Parte do meu corpo na ânsia de mulher. Antes fossem mãos, obras condenadas, Pra que todo o meu prazer já não tão vivo o bastante Nunca fosse absorvido, num lugar qualquer... Denílson Rocha Dedicado a Cristina Conserva Conta comigo sem duvidar, em qualquer segundo, em mil lugares do mundo. Conta comigo às quatro da manhã de domingo, debaixo de chuva, com febre de quarenta. Conta sim, experimenta! Não faz conta, apenas conta. Conta comigo e me conta até o que não é da minha conta. Se está feliz, cansada ou tonta, Corre pra mim, me conta, que eu te conto. Por que estou sempre tão pronto. Não duvida, divida comigo um conto. Sentado ao teu lado, encantado, Braço dado, caminho partilhado. Te digo com toda razão, ou não. Te digo de bate-pronto, ou nem tanto. O porquê de ser assim. Esse encanto teu em mim. José Alves Sobrinho Adeus violinha, Até não sei quando... Porém, stou pensando Que até nunca mais, Levo por lembrança, Da nossa amizade, Bastante saudades, Soluços e ais. Por motivo justo Que não te declaro, De te me separo Viola querida, Porém não esqueço Que em dias maiores Me deste os melhores Momentos da vida. Uni-me contigo Ainda menino, Muito pequenino, Sem forças, sem planos, E dessa união De ingênua criança Fiz-te a esperança Dos meus quinze anos. Levaste-me à salas Granfinas e nobres, De ricos e pobres, Burgueses, ricaços, Num mundo de sonhos, Prazeres e glórias, Eu tive vitórias Contigo nos braços. Andei pelo mundo Vivi muitas vidas Mulheres, bebidas, Castelos e sonhos, Sem nunca pensar Na realidade Da adversidade Dos dia medonhos. No mundo dos versos Enfrentei campanhas, E em terras estranhas Fui bem acolhido, Joguei com o naipe Dos maiores trunfos Pensando em triunfos Foi tudo perdido! A aurora da vida Foi bela e fagueira, Embora, ligeira, Qual um furacão, Que as horas alegres São mais fugidias Que as horas vazias Da desolação. Adeus mocidade, Doces primaveras, Benditas quimeras, Feliz paraíso, O último pranto O tempo enxugou E a idade apagou O último riso. Saudades infindas Das horas felizes Abrem cicatrizes No meu coração, E desiludido Das glórias terrenas Vou viver apenas Da recordação. Adeus companheiros E velhos amigos Colegas antigos Que eu chamava irmãos, Desmancho o cenário Fim do episódio Sem mágoas sem ódio, Sem nada nas mãos. Aos velhos colegas Deixo o meu abraço Neste humilde traço De minha saudade E aos jovens poetas De Dom positivo Dou como incentivo A minha amizade. E volto ao silêncio Do anonimato Já que o mundo ingrato Não me compreendeu E vendo que tudo É cheio de falhas Desprezo as medalhas Que o mundo me deu. E tu ó violinha Amada e querida Guarda minha vida No teu abandono, Pede as estas cordas Que tocaram tanto Solucem no pranto Da dor do teu dono. Muito agradecido Pelo que fizeste Tudo que me deste Do pão ao renome, Não mais ouviras Os meus estribilhos Fica com meus filhos Lembrando meu nome. POEMA FEITO DE IMPROVISO NO
TEATRO JOSÉ DE ALENCAR, EM 1995. POR ACASIÃO QUE
RECEBIA UMA HOMENAGEM DOS ESCRITORES FOLCLORISTAS GERALDO AMANCIO E WANDERLEY
PEREIRA. José Alves Sobrinho Fortaleza, terra amiga Aonde em anos atrás Cantei com bons cantadores, Muitos não existem mais: Martins Fonseca, Zé Aires, Repentistas invulgares Como Vicente Granjeiro, Bentevi, José Batista E outro grande repentista, José da Mota Pinheiro. Entre os vivos não esqueço O grande Antônio Ferreira, João Siqueira de Amorim, Também, Lourival Bandeira, Dimas Mateus, Zé Maria, Benoni, luz e poesia, Iluminando o sertão, Alberto e José Porfírio Fazem parte do delírio De minha recordação. Fortaleza de Galeno E de Leonardo Mota Seria grande injustiça Eu não lembrar de Leota E de Gustavo Barroso Pesquisador primoroso Das cantigas populares. Estão na mesma fileira Hoje Vanderley Pereira Ontem Francisco Linhares. Meu nobre amigo Siqueira Meu velho colega amigo Que felicidade a minha! Estar aqui junto contigo! Recebendo esta homenagem, Ouvindo a mesma mensagem, Sentindo a mesma alegria, Só assim recordaremos As noitadas que fizemos Cantando de parceria. Parece que a natureza Nos deu o mesmo destino: Você, poeta andarilho, Eu, poeta peregrino, Houve um poder contra nós: Você perdeu sua voz O mesmo me aconteceu, Somos nós dois mutilados, Dois passarinhos calados Que p destino emudeceu. Obrigado, Vanderley, Agradecido, Geraldo, Um no lugar de Leota, Outro, do Cego Aderaldo. Entre alegre e comovido Estou mesmo agradecido Aqui, penhoradamente, Por ganhar esta comenda Que não foi uma encomenda E eu recebo humildemente. E a vida continua, Estamos em Fortaleza, Não há motivos de angústia, Só de alegria e beleza, Pois recebo neste dia Mais do que mereceria Pela minha vida inteira, Depois deste grande saldo Muito agradeço a Geraldo E a Vanderley Pereira. João Martinho de Mendonça 1. Formigas mortas nas meias novas Fazem Pensar Na evolução das espécies, não das que rastejam, mas das que
flutuam: idéias que não morrem 2. Um mundo imaginário onde pousa lentamente meu coração Se descortina Para além da novela diária de odiosa, lancinante e farta
limitação 3. Aos que se soltam um belo presente será dado Ao olhar Diferentemente as luzes e as estrelas: discreto sorriso do
luar 4. Por mais que se sofra, se queixe, se deixe, se negue, se
esqueça ou se largue Vive-se Com o gozo à espreita na cama, no quarto, na rua, na sala, no
sonho ou na calçada 5. Porque ela não queria saber naquele dia sobre a revolução Do neolítico Inscrições rupestres, demoradas festas em seguidas noites
enluaradas: milho, trigo e arroz celebrados Janaina Lira Não tenho outra coisa para fazer, senão poesia Não tenho outra coisa para te dizer senão poesia Não tenho dor ou alegria, senão poesia Não tenho tempo, o tempo é poesia Não tenho amigos, senão poesia Não pretendo coisa alguma, senão poesia Não posso fazer outra coisa, senão poesia Não há nada aqui dentro Não há nada lá fora Mas tudo é poesia O mar é uma ínfima gota de água O resto e tudo mais é poesia A poesia me insiste, me instiga, me lambe Me acocha, me espreme, me espreita Me faz... E eu, Eu não sou poesia Manoel F. G. Filho Pérola rara, que bom sentimento... Viver o momento dos teus olhos nos meus Tão rara beleza que só em jóias se encontra Desse casual encontro, tão perto do céu. Descerrando o véu, do acaso vivido... Sinto-me servido por anjos em alegoria; Vislumbrar essa aura de rubra energia Minha sede sacia e nem sou menestrel! Obs.: Em algum lugar, em alguma noite, entre Fortaleza e
Recife, a Antonio Soares O caos e um mito para te repor a existência e te cingir da futilidade de um passeio ao velho Rossio. Já falharam três revoluções para te conquistar e és sempre a mesma rocha sem abalo a mesma estrela fixa dos longínquos céus esmaecida. Diz-me o teu nome, o teu pensar de viúva agreste, deixa-me cair na palma da mão os suores do rosto de procurares o pão que te alimente. Tu não sabes que um ócio longínquo te retém o passo e uma andorinha te encarnou a saudade triste do exílio africano? Em breve saberás oficialmente o impossível do mais para o teu mundo. Antonio Soares Folhas dos sonhos verdes o Outono arrancou-mas uma a uma. Banco do jardim do tão idílio jovem na tarde saudosa dum bom Julho A metafísica do longe com faixas do silêncio me prendeu nas regiões puríssimas do além - marasmo deste olhar-me nos espelhos das águas mentirosas ...folhas dos sonhos verdes veio a mão caprichosa do Outono e arrancou-mas uma a uma. Luiz Gonzaga de Sousa A noite cai Normalmente, como antigamente. Tudo está simples como antes. Mais tarde, um estampido Bate fortemente Em meu ouvido Anunciando a dor intransigente. Inocente, eu vou ao trabalho. Algo insinua o que pode acontecer. Aqui e acolá a tristeza me bate De instante a instante Como se fosse um encarte Que aos poucos se desligasse Sem eu poder compreender. E, ao chegar em casa. Todos me esperavam absorto Com demonstração de tristeza Que eu tive que conter Extasiado com o choque Que a natureza impõe Ao mostrar o quadro de um morto. Era o meu pai que dormia Para a sua libertação. Que liberdade se o mundo o aprisiona Com o sabor mundano Intransigente e sem rumo, Cujo comando fraquejante dormita No campo da solidão. Luiz Gonzaga de Sousa Nos encontramos um dia. Éramos dois enamorados, Que víamos encantamento Numa anestesia feroz E, lá juntos, O amor cresceu feliz Puxado pelo alado. A comunidade cresceu. Já éramos três Vivendo num mesmo teto Entre tapas e beijos. A sobrevivência ao lado Falava ao pé do ouvido Como assim se fez. Já cinco dentro de casa A alegria era abundante De choros e risadas Intermitentes ao lado Entretanto, o mundo une Somos oito num mesmo teto Ainda organizada. Porém, desliga-se tudo; Sai nossa mãe de casa, Vai a outro campo buscar Sentido para a vida. Em seguida nosso pai, É que vai cumprir sua missão Cujo desmaio se esvai. Luiz Gonzaga de Sousa Somos pó, E para o pó vamos. Foi minha mãe, depois meu pai. Nós ficamos tristes a chorar Mas, não podemos lamentar. Tarefa cumprida Como observamos. Minha mãe foi rosa, foi esperança, Foi tudo que nós tivemos Foi o brilho de uma labuta Cuja simplicidade empreendemos De forma singular vivemos O encanto de uma vida Que depositou herança. Meu pai foi um exemplo Para não se fazer igual Foi o reverso da luta Porém, de um jeito natural, Como tudo na natureza Que tem a sua franqueza; Pois, o bem não se disputa. Minha mãe, meu pai se foram. Só nos restam a saudade E a vontade de tê-los presentes, Numa família só e unida Portanto, o tempo passou, Não soubemos aproveitar A oportunidade de amá-los em vida. Luiz Gonzaga de Sousa Estou só A saudade me bate intransigente Lembranças de minha mãe Saudades de meu pai São dores que não passam E facilmente se impõe Transportando-me ao nada. É difícil conviver Com as dores da ilusão Que fortalece a tristeza Acabrunhando o ser humano Não sei me libertar De um passado que maltrata Numa resistente escuridão. Paro um pouco Penso e penso calmamente Como se fosse um exemplo fútil Para inspirar alguém Perdido em seu egocentrismo Por não participar da vida Que eu pensei também. Pelas ruas escuras eu passo Olho para um canto e outro Não sei se compreendo algo Porém, vivo a meditar Com lágrimas em meus olhos Que não querem parar De molhar as preces que faço. Chicão de Bodocongó Campina bondoso, 31 de julho de 2006 Às 22ho8min Nas curvas, nas retas, nas paralelas, O mundo segue na sua caminhada E na estrada encontra seu rumo. A primeira passa, vem depois a segunda E a terceira em diante Ficará radiante em viver Em um mundo das passarelas, E entre todas elas surge ela A eleita a Cinderela. A simetria do corpo, O seu brilho, A luz que reluz Na pele A sofrer olhares, Algures Os olhos de um de dois E mais de três Seguem a eleita. Consta Que o mundo nada mais é Que a beleza em forma De surpresa, na forma de mulher que vemos Nas esquinas, nos movimentos Das ancas, potranca, bela potranca, Perfeita. Chicão de Bodocongó Campina Grande, 12 de agosto de 2006 Às 15h54min Pichotebol, furabolo, catapiolho, O seu rei não manda em nada. A coalhada está servida, A quadrilha é da pesada, Com muitos paus ela faz uma jangada E se descuidar, ganha na cara uma mijada. Farofabol, faro de
farofeiro, Pudim de queijo, poder que eu quero, Que eu berro, me entreto depois De comer pudim que foi feito para mim. Festabol, aí está a
alegria, A história é outra, e a confraria É sempre a mesma , a gula fala mais Alto, dá pinote e nada a satisfaz. O pedido é o mesmo: quero mais, quero mais, quero mais. Chicão de Bodocongó Campina Grande, 28 de julho de 2006 Às 6h49min O dia nasce claro A ausência da chuva Faz-me um observador. Como viver e prevenir invernos? Há uma certa tendência em nos sentir Internos de um ou de muitos infernos Que nos impõe uma série de inconvenientes. Renitentes estamos a mercê dos fatos Que em dose cavalar nos surpreende E nos remete para uma zona paranóica, Rasteira, que só pensa besteira, e nada mais. Chicão de Bodocongó Campina Grande,16 de setembro 2006 Às 20h54min Quem na vida duvidou do ser correto E não viveu uma injusta repressão. Quem aprendeu errando reconhece Pra todo erro tem castigo que merece. Mas quem comanda, representa a sanção De uma lei, de um domínio incontestado, Confundindo o poder com a razão, Pode está equivocado. Lá na China corrupto é fuzilado E a família ainda paga a munição. Ainda temos inocente que afirma Que gostaria ter no Brasil a bruta lei, Onde todos lucrariam com a medida Só o corrupto perderia a própria vida. Um braço forte era a grande solução Para um Brasil completamente depravado, Pra felicidade desta nação, Precisa-se ter como base o confirmado, Lá na China corrupto é fuzilado E a família ainda paga a munição Pra findar estes versos maltratados Que de dez não sei o que fazer De dez pés já cheguei a onze ou doze, Tentei pose de poeta e nada fiz Com esforço ainda saiu um comentário No Brasil quem morre é um infeliz Há de ser fuzilado um operário E o otário ainda acha uma razão Que lá na China corrupto é fuzilado E a família ainda paga a munição. Chicão de Bodocongó Campina Grande, 16 de junho de 2006 Às 2h12min A mera opinião é o início do trajeto Que irá levá-lo para um lugar seguro, Base de um projeto que define o que quer. A mera opinião impõe ao mundo uma sugestão, Em segundos o fará recorrer ao mesmo mundo Pondo-se a tratá-lo como realmente é. A mera opinião comanda os desejos De defender o viver com muito empenho De resolver aquilo que é tratado como urgente. A mera opinião é a conclusão de não ficar calado Quando nada serve para distinguir No relato, o submisso do independente. A mera opinião, a resposta dada cheia de emoção Ao mundo virado ao avesso, A salvação do tropeço, o começo insuficiente para uma
discussão.
Chicão de Bodocongó Campina Grande, 23 de setembro de 2006 Às 13h21min Amanhã é dia de festa Dia de fazer o que não presta Fazer parte de uma orquestra desastrada. Amanhã pé na estrada Para os que gostam de folia Vamos viver um belo dia Amanhã nada tenho pra fazer O que eu quero é não me maldizer E ainda resta o prazer de balançar na rede. E minha preguiça responde, me faz acrescentar: Hoje é o amanhã de ontem É preciso descansar e vadiar. Janice Adja Costa Decorre minha vida perene, Neste rio abusivamente repleto. Onde a paisagem brilha, Ao receber a luz solar. A maior obra ourivesaria! Meu coração esplêndido, Farto de alegria e paz, Não chora o passado alado. Vive sem entremezada ou culpa, Na claridade do sol e na luminosidade da lua. Neste sustentáculo natural, Purifico o amargo da vida. Desembebedo as enxurradas, Deixo o lírico perfume silvestre Janice Adja Costa Nesta ambiência selvagem, Não quero ser protagonista. Vivo o anonimato, Infeliz neste grande âmbito. A dolência das árvores, Que mortas viram até portas. Para trancar a matança, Dos que habitam nas trevas. Homens inglórios, Modificadores da geotermia. Fazendo parte dos vaidosos nidoosos, Com relutância impontual. São homens que matam, Destroem o que tem de graça. Deixando assim o planeta, Cinza, sem vida e sem mata. O homem cruelmente impiedoso, Enfurece a natureza. Larga a terra enferma, Infestada de impurezas. E no centro desta selva, Existe mentes luzidas. Fiança até para salvar, Mosquitos, baratas , ratos e lagartixas. Cada um é unifloro, Uno na sua espécie. Da fauna e flora que aflora, Em vidas pra gerar vidas. Janice Adja Costa Na formação do mundo, O criador de multígeno, deu cores. E em suas combinações de tons, Surgiu o homem. O homem, sotração arrufadiço. Espécie tácita com estretégia Vindo da estratocracia, Para assolar vidas. Um sovinísta crudelíssimo. Cheio de desassossego. Manifestado de descoco, Insônia escurecida e não olvida. A lucina do céu chora com o
desgosto, Desta espécie malígna De cor vibrante e lucilante. Olorum, atribuindo sua mandriice A falta de onde poder ombrear-se. Presenteou-lhe com a mulher alípede. Arrufado, escraviza a mulher conquistadora Da autonomia indecomponivelmente iluminada. Frágil, acuado pelo medo da solidão aflogística, O criado tenta furgir da sua
responsabilidade De Ter que sentir a merecida dor da cronicidade. O criador da moderna senzala urbana Entra em fuga mesta selva de
concreto. Pondo seus pés no sepulcrário ainda
em vida Ouvindo uma voz estridulante E sem medo de perder as alvíssaras Grita: MORRA! Glaucio Souza de Oliveira glauciador@bol.com.br Parecia o fim de tudo. A tarde ia morrendo. Eu queria viver a luz O sol se escondendo. Eu queria não sentir medo... O escuro é tão frio. Mesmo que eu fizesse um círculo na terra, Pra não perder tua luz, nem da tarde á luz tão bela. O sol agora é metade. Metade de mim também desaparece. O ocaso é a separação da tarde, o acaso te separa de mim... Entre sombras sou crepusculário vagalumeando a te procurar. É tarde, quase noite. Teu amor também escurece. O mormaço foi o que restou da luz, A mim o que restou foi a prece... ♪ ♫ Ave Maria... ♪ ♫ Glaucio Souza de Oliveira glauciador@bol.com.br Vai, vai para bem longe, Passa dias sem me ver. O coração se penetra sem a saudade caber. Mas á medida que andar seja para onde for, Algum dia quando voltares, Traga na medida do amor. Se a saudade vier Fecha os olhos do corpo. Manda teu ser em viágem. Buscar pelas asas de um sonho, O que teus braços não podem abraçar E o que a distancia não pode se opôr. A distancia pode ser obstáculo para o corpo, Mas nunca o será para a alma. Glaucio Souza de Oliveira glauciador@bol.com.br Há dentro de cada ser. Um ser livre, um ser reprimido. Um ser luz um ser obscuro Um ser que dar, outro que atira na vida. Um ser nasce; um ser aborto. Um ser que ama outro que odeia. Um ser másculo, um ser feminil. Ser filho ser pai, mãe, homem, bicho... São tantos seres dentro de um... Ser só. Que pode até... Não ser Um ser. Sem ser bom nem mal. Apenas um ser humano, sem tirar nem pôr. Wallas Ramos Tempos de pedra A sóbria idade escoa A sombra te cobre, indecisa. Tua tênue alma treme: Onde achar espaço, se O laço apertou; e, o que era vasto É apenas estéril deserto. Ocaso do sol sobre a densa areia Mas qual o mar, e quais sereias? Wallas Ramos Nesse instante quase tudo cai: A árvore seca O arco-íris esvai-se. A flecha quase atravessa Teu universo de cal. Agora se quer o outro Te servirá de conforto. Eis a encruzilhada: Ir pelo barranco ou a reta E não a sempre estrada Mais um passo, paraíso, Ou, o buraco da promessa. Wallas Ramos No meio, o caminho reto Placidez da potência Adiante o abismo futuro: Aquele impassível tudo Agora, servirá algum desvio? Os olhos vesgos não vêem demais? Tanto que luz cega de frente Aqui, correr, orar, precipita o poente. Wallas Ramos Rompeu-se o entrave: Após intensa luta, o gozo Veio, e, idem, o desmaio. O tempo pleno é este; O inverso é um outro espaço. Hoje, veio aquele sopro de vida: Aqui ela cruzou tua reta, Wallas Ramos O excesso te levou longe. Agora, a tua frente, o abismo Antes de ousar esse vôo vazio Um último sacrifício: voltar, Suave, à tua singela origem. Wallas Ramos O dia começa e vem a esfinge Que hoje, sorrir e te convida Abismo, planície, ou mar à vista? Tudo extenso e aberto Até a vertigem da noite O sopro seco do coiote Que busca em ti o interlúdio. Wallas Ramos O tempo, um oceano Ela, ilha à deriva Eu, o sol de todo instante Não ilumino meus sonhos Eu não te amo Mas poderia: Se fosse oceano Te inundaria... ela não quer mais você apenas sol ou semente deseja-o todo: outro dia, plena nascente. a semente cresceu é uma árvore no alto é quase um astro uma estrela sem deus. quem vem longe? mais um eremita que não mais acredita e na poeira se esconde. AMOR AMAR Lúcia Albuquerque Por que existe guerra Se amar é um ato tão sublime? Amor: Sentimento misterioso Invade o coração sem pedir licença Amor que toma nossa vida Depois convida a rir ou chorar Deixa a vida bagunçada Faz-nos pensar em nada Amor Amar Em um mundo de contradições, guerras e desilusões Para aprender amar É necessário crer, acreditar e buscar Lúcia Albuquerque Queria viver em mundo melhor Um mundo com cores belas Com paz infinita, pássaros sempre a cantar Um mundo iluminado, sem querer crer no pior Queria acreditar nas pessoas boas Pessoas que possuam amor no coração Em um mundo de paz constante Sem ver na minha frente coisas loucas Queria não presenciar sofrimento Nesse mundo cada vez mais ilusório De lutas pessoais constantes Só quero crer que todos um dia terão alento Queria que não existisse doença Nessa vida tão perversa Que agride, machuca, condena Onde a única força é ter crença Lúcia Albuquerque Na minha face se faz presente A brisa leve que meu coração acalma Fazendo-me pensar em ti Inundando assim minh’alma Essa brisa inundante Apossa-se do meu coração Enlouquece meu pensamento E soa aos meus ouvidos em forma de canção Revela-me teus ocultos segredos Se pensas ou não em mim Cria uma fantasia Sendo todos felizes no fim. |
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VOCÊ
PENSA QUE É FÁCIL? de Ronaldo
Evaristo Gonçalves do livro em
preparo “amar não é assim” O homem que
entrou na sala do delegado, vinha dizendo para o agente que o conduzia em tom
de muita exaltação, que a última coisa que queria fazer na vida era quebrar
os vidros das estantes mostruários da livraria cultura, da forma como havia
feito, não fosse haver ali exposto alguns exemplares de um livro..... O delegado de
bigodinho úmido, e muito lustroso, já ia abrindo a boca num sorrisinho
cínico, enquanto o agente solicitava ao preso que se sentasse e fechasse o
bico. - Muito bem, o
que foi que o tal ai fez? perguntou o delegado. - Quebrou a
livraria toda, rasgou muitos livros e fez um escândalo dos diabos. Eh, estas encrencado cabrudo, podes dizer-me
porque fizesses isto? O homem que até
então tinha ficado calado começou a falar de forma pausada e muito coerente,
olhou para o agente como quem pergunta se estava certo ou errado, e foi
dizendo, que o delegado não haveria de entendê-lo, pois que ele era um
escritor, um homem educado, que gostava das letras, e amava os livros, foi
falando isso e gesticulando meio desesperado, como quem não encontra palavras
para exprimir certos sentimentos e vai falando por gestos, por fim deu de
ombros e calou-se, para logo em seguida cair num choro que se tornou
inquietante e irritava o delegado que tinha de concluir o inquérito e
encaminhar o sujeito para a sua jaula enquanto o processo... O homem tinha os
olhos profundos e tristes, a fisionomia carregada, os cabelos compridos e
totalmente brancos e desalinhados, fazia conjunto com uma barba profusa,
branca e entranhada. Trazia a tiracolo uma bolsa de couro bastante usada e
completamente cheia de livros e cadernos com rascunhos. Conforme o agente
constatara, tratava-se de um escritor; pior de um escritor bem conhecido na
cidade, com alguns alfarrábios publicados e esquecidos pelas bibliotecas da
vida. O homem deu um
grande suspiro e com os grandes olhos voltados para a parede continuou
falando. Eu tinha uma
historia todinha na ponta da língua, estava na mente todos os dias quando
acordava, e sabia cada palavra que iria por no papel. O tesouro de um
escritor é sua memória, seu talento por melhor que seja, depende dela para
existir, e o romance estava ali e estive mourejando essa boa história por
vários dias, mas de repente apareceu uma pessoa a quem eu não poderia deixar
de dar atenção, uma pessoa muito importante para mim e depois o que houve é
que tudo que eu mais desejava era dar-lhe um bom presente, um bom livro e foi
ai que tudo começou, não fosse haver naquela vitrine um exemplar com o mesmo
título do meu romance... aquilo era demais, não bastasse os tantos magos da
vida que agora se insinuam como escritores e correm o mundo, psiquiatras que
viram gurus e tudo mais e agora uma
simples idéia já era então copiada e editada aos milhares... Você pensa que é
fácil pensar e ter seu pensamento roubado, suas idéias plagiadas editadas aos
milhares? O delegado foi
achando aquele discurso muito esquisito, foi olhando também para o sujeito
que parecia mesmo um louco, não somente pelo que falava mais por que tinha um
aspecto estranho, grandalhão descomunal e que falava aquilo tudo de uma forma
agora muito calma, só poderia mesmo ser coisa de loucos ou de escritores...
ainda achou que afinal, tudo poderia ter sido mesmo uma coincidência, o tal
título do livro ser o mesmo que etc. e tal e que tudo isso deixara o sujeito
furioso... coincidências, meu velho, coincidências e nada mais, foi dizendo o
delegado que não contava com aquela reação do escritor, altão,
galego, de olhos tristes e profundos, que ficou de pé e foi dizendo que
coincidências era a pê que pê
pê, que isso não era modos de se entender de arte,
muito mais da arte da palavra esta coisa única e maravilhosa que transforma
tudo, que traz da alma o mais profundo dos sentimentos e expressa no mais
singelo diálogo, no mais simples dos personagens, nestas histórias que vão
rasgando nossas vidas, nas ficções mais verdadeiras que podem expressar toda
a vida de um povo etc. e tal, será que nunca leu os sertões do Euclides ou
mesmo o Macunaíma, Iracema de José de Alencar, os livros do Veríssimo,
Tolstoi, Dostoievski, Heminguay, Nabucov, ou nunca passou da décima primeira página de
alguns livros de Agatha Christie, talvez seja daí que tirou esse seu bigodinho
a Irritado ou
lisonjeado qual era mesmo o sentido certo da coisa, pensava o delegado, e
agora o que faço, perguntava-se, pois sua primeira vontade foi de correr ao
espelho, se havia espelho naquela espelunca de delegacia, queria ver o quão parecido
estava com este tal Poirrot, que era lá, um bom
detetive, e um homem de muita intuição, que por sinal era o que lhe faltava,
porque já não sabia se ria ou se esbraveja com o tal grandão,
onde já se viu, escritorzinho de nada fazendo comparações daquele tipo, que
foi mesmo que ele quebrou, quantos livros rasgou, teria como sanar o prejuízo
e ponto final, poderia ir andando pela vida, quem sabe teria agora uma nova
história para escrever, e foi pensando assim que o delegando estava ficando
muito animado para resolver o caso, não fosse uma nova insinuação do homem
que agora falava em tom de vítima, que se houvesse justiça, tinha-se um caso
e tanto, pois poderia provar por A mas B que o caso era de roubo de idéias,
de plágio, de alguém que sem saber como, lhe havia furtado a inspiração, e
assim, sua história havia lhe escapado da mente como que num sonho e estava
ali na prateleira, nos milhares de livros publicados. E era tudo muito
verdade, pois tinha também folheado um volume do tal livro e constatado, que
o outro se apoderara de seus pensamentos, pois estava tudo ali, tudo o que
desejava escrever no seu novo livro estava ali exposto de forma clara e
nítida, como mesmo fora possível tal coisa não lhe pergunte, apenas
investigue e descubra que foi mesmo assim. Agora precisava
mesmo, conhecer mais sobre esse tal homem, o Poirrot,
o famoso detetive que se como tal ficasse, poderia incorporando seu jeito
resolver o caso, não poderia o agente que trouxe o homem providenciar uns
livros dessa tal autora inglesa, Agatha Chistie,
vamos homem faça alguma coisa, ia já dizendo para o agente, que fosse ao sebo
do Ronaldo, lá na Getúlio Vargas e comprasse tantos quantos tivesse, livros
da tal autora, que fossem protagonizados pelo tal detetive belga. Mas o
grandalhão continuava na sua fala mansa e calma e ia dizendo que isso era uma
questão muito séria, não era loucura, pois podia provar, que seus personagens
estavam ali todos no tal livro e que de tanta raiva o rasgara e de sobra
quebrara os vidros e espalhara os livros dos gurus e dos magos, pois nesta
cidade os autores locais ficam esquecidos, seus livros quando publicados,
ficam escondidos nas prateleiras das livrarias, ninguém sabendo mais da sua
existência. Difícil é ser
delegado, disse então Hercule Poirrot,
você pensa que é fácil resolver um caso desse, seu louco, não sei onde estou
que não lhe ponho nas grades, ali onde, deve ficar até melhorar o pensamento
e, onde já se viu uma coisa dessa, ocupar a polícia com uma doidice assim, ao
passo que o grandão foi então dizendo, que o
delegado era um apressadinho, que não gostava era de pensar, que de Poirrot só tinha mesmo o bigodinho, mas que nem merecia
tanto, aquilo era mesmo uma desonra da profissão, pois não custava nada um
pouco de imaginação que bem poderia ajudá-lo. - Ninguém rouba
uma idéia quando esta está ainda em nossa cabeça. - Enfatizou o delegado,
para logo em seguida ir se arrependendo do que dissera, pois o homem, riu
alto e mostrou os dentes, levantou o braço e apontou com um dedo na frente do
delegado, que a essa altura já não se importava mais com o problema da
autoridade. Foi dizendo como quem adivinhava,
que o delegado gostara da idéia de parecer com o famoso detetive das novelas
da Agatha Christie, que se não tinha ali escondido nas velhas gavetas dos birôs algum livro da autora policial mais lida no mundo,
já amarrotado de tanto ser manuseado, isso sim, não era consciência, mais um
descuido imperdoável. O delegado ouvindo tudo, queria discordar e não podia,
queria concordar e não sabia o que fazer, afinal de onde aquele tal tirava
tanta coisa, já estava até chegando a concluir que era mesmo possível roubar
de alguém suas idéias quando estas ainda estão na cabeça, pois não é que o
tal estava a ponto de adivinhar, ou não estaria ele apenas sugerindo coisas? |
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